Largo Zumbi dos Palmares

Por: gasometro

mar 02 2011

Categoria: Bairros, Cidade Baixa

Largo Zumbi dos Palmares, ponto de encontro do Massa Crítica de Porto Alegre - Foto: Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho

Porque manter o Largo Zumbi dos Palmares.

A Cidade Baixa

O Bairro Cidade Baixa correspondia, inicialmente, a toda a área situada ao sul das muralhas da cidade. Zona Alagadiça, às margens do Guaíba e do Riacho (atualmente Arroio Dilúvio), passou a ser urbanizada por volta de meados do século XIX. Antes disso, constituía-se de região com denso matagal, também denominada “Emboscada”, em virtude da forte presença de escravos fugidos, que, nessa área podiam resistir aos seus perseguidores escondendo-se no local e organizando emboscadas.

O arruamento iniciou-se pelas ruas que cruzavam o bairro externamente, fazendo ligação com Azenha, Menino Deus e zona sul em geral. O que podemos chamar de interior do bairro, era constituído de chácaras que, ao longo do tempo, foram sendo loteadas. Daí a origem das quadras grandes da Cidade Baixa, mesmo já passado mais de um século do fracionamento dos terrenos.

Zona insalubre e alagadiça, a região não era propícia à moradia das famílias da elite porto-alegrense. Moravam nela, principalmente as famílias pobres e afro-descendentes.

Essa origem popular e negra da Cidade Baixa nos faz compreender a força das manifestações culturais africanas como as casas de culto africanista, ainda hoje fortes na Cidade Baixa e o carnaval. Assinale-se que a Rua Lopo Gonçalves, serviu para residência do lendário Príncipe Custódio, de família africana nobre e grande liderança dos cultos afro-brasileiros.

Foi a partir do final da década de 50, que a fisionomia da Cidade Baixa, com seus prédios baixos e direcionados à habitação familiar, vai cedendo espaços para ocupação mais intensiva, com prédios de maior altura, maior diversificação da rede de serviços.

O Largo Zumbi dos Palmares

O espaço em questão tem origem na interseção de quatro vias da Cidade Baixa. São elas: Travessa do Carmo, João Alfredo, José do Patrocínio e Avaí (atualmente com seu traçado modificado, para construção da Av. Loureiro da Silva).

A Travessa do Carmo, que faz o limite do largo a sudeste surgiu por volta de 1877, de território cedido pelo Barão de Guaíba.

A Rua José do Patrocínio, que faz o limite do largo a nordeste , tem origem no mesmo período (1870), ainda que a solicitação de abertura remonte a década de 40 do século XIX. Porém, só na década de 80 daquele século é que vai seguir e cruzar a então Rua Avai, no trecho que hoje está compreendido entre a Travessa do Carmo e Loureiro da Silva.

A Rua João Alfredo, que faz o limite do largo ao sudoeste é uma das vias mais antigas do bairro e mesmo da cidade, fora do perímetro central. Sua urbanização remonta o final da Guerra dos Farrapos. Trecho de passagem para a zona sul, muito utilizado para transporte de gado e conhecido pela alegria do carnaval que protagonizou.

A Av. Perimetral, que faz o limite do largo a noroeste é a mais recente das vias que delimitam a área em questão. Surgiu na década de 70, sobre o leito da Rua Avai, hoje bastante reduzida em relação ao seu tamanho original. Sendo a mais recente é a via que, efetivamente, criou o Largo no formato que ele tem atualmente.

Ao ampliar o leito da antiga Rua Avai, as obras da Primeira Perimetral, absorveu parte das residências ali existentes. A mesma obra provocou a demolição de casas da Travessa do Carmo e da José do Patrocínio.

A Atualidade da situação do Largo

Devido à presença da sede da antiga Empresa Porto-alegrense de Turismo (EPATUR), o largo recebeu a denominação de “Largo da Epatur”, nome que caiu no gosto popular, até que a Lei 9035/02, denominou, oficialmente, o espaço como Largo Zumbi dos Palmares. Trata-se de referência adequadamente localizada, em função da tradicional presença afro-brasileira no território.

O Largo Zumbi dos Palmares, constituiu-se em espaço privilegiado de convivência comunitária. A realização de uma das maiores feiras-livres do Rio Grande do Sul consolida-se como tradição no bairro. Como costuma acontecer com as feiras-livres, a Feira ali realizada auxilia na regulação dos preços ao consumidor, além de ser um ponto de encontro entre os moradores do bairro e arredores.

Apesar de ser um espaço inóspito e sem grandes investimentos públicos, o Largo, fora dos momentos de realização da feira, é ponto de encontro da comunidade, do passeio das famílias e da brincadeira das crianças. Trata-se portanto de mais que um espaço, uma área geograficamente delimitada. Constitui-se em um lugar cheio de memórias e significações. É testemunha do dia-a-dia da Cidade Baixa e do processo que mais descaracterizou o bairro, que foi a construção da Primeira Perimetral, verdadeira cirurgia mutiladora do bairro.

Além do aspecto funcional (feira livre) e social (convivência comunitária), cabe ressaltar que o Largo Zumbi dos Palmares, cumpre o papel de, no seu vazio de construções, resguardar as baixas altitudes que ainda caracterizam o bairro e apresentar, a quem vem ao bairro a partir do centro, um ambiente aberto, uma entrada amistosa.

A relação do Largo com as áreas de interesse cultural.

A Cidade Baixa, pela sua constituição histórica e pelos tipos arquitetônicos que abriga, é área com reconhecido interesse cultural para o conjunto da cidade. Trabalho desenvolvido pela Faculdade de Arquitetura do Centro Universitário Ritter dos Reis e Prefeitura Municipal de Porto Alegre, identificaram diversas áreas de interesse cultural, na cidade. Para a consideração de interesse cultural, foram consideradas as áreas nas instâncias cultural, morfológica, paisagística e funcional, nessas áreas, os regimes urbanísticos são diferenciados, tendo em vista a manutenção da ambiência urbana do entorno.

Definidas por decreto, as áreas de interesse cultural constam, em número de 136, considerando as áreas de interesse cultural (AICs) e áreas de ambiência cultural (AACs).a das seguintes áreas:

Observando a área em que se localiza o Largo Zumbi dos Palmares, assinala-se a presença das seguintes áreas de interesse cultural:

Área do Colégio Pão dos Pobres e Igreja Santo Antonio do Pão dos Pobres;

Área da esquina das ruas José do Patrocínio e Loureiro da Silva, contígua ao Convento do Carmo (em frente ao Largo Zumbi);

Área do Convento do Carmo;Área do eixo Av. Borges de Medeiros/Largo dos Açorianos – (Em frente ao Largo Zumbi).

Nessa observação, verificamos que o Largo Zumbi está envolvido por áreas de interesse cultural, tornando-o parte inseparável dessas áreas. A construção de qualquer obra que comprometa a harmonia urbana no Largo atenta contra a proteção ao patrimônio histórico e cultural do bairro Cidade Baixa.

Fonte: Associação Comunitária dos Moradores da Cidade Baixa

 

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