O Guaíba e suas aves

Por: gasometro

nov 25 2011

Categoria: Ambiental, Orla

Aves sobrevoando o Rio Guaíba - Foto: Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho

Texto de Nelson Ilha na Revista Náutica em 2009:

21/05/2009

Polêmica sobre o Guaíba

A Prefeitura de Porto Alegre tem 90 dias para promover um plebiscito para ouvir a população sobre o projeto Pontal do Guaiba.

O polêmico projeto contempla a área do antigo Estaleiro Só, área nobre a beira do Guaiba, próxima ao novo Barra Shopping Sul. Tudo começou quando alguém se deu conta que o fato do Guaíba ser lago, rio ou estuário, mudava a faixa de recuo obrigatória. Recomeçou então a velha polêmica, agora embalada por claros interesses imobiliários. Será que não virou lago justamente por que sendo lago o recuo é de somente 60 metros e não 500 como dizem a lei?

De 1965, com o numero 4771, estabeleceu a necessidade de áreas de preservação permanente destinadas a conservar “os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico da flora e da fauna, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas”, na qual se enquadra o rio Guaíba que teve a faixa de preservação fixada em 500 metros . A partir da pressão de moradores e políticos que se julgaram prejudicados pela lei, foi constituída uma comissão no fim dos anos 70 para estudar uma nova denominação para o Guaíba. Em 1982, o Governador Amaral de Souza, decretou que o rio passasse a ser denominado lago. Para corroborar este ato, nos anos seguintes foi elaborado o Atlas Ambiental de Porto Alegre, que sacramentou a arbitrariedade. A Lei Orgânica do Município apresenta o Guaíba como rio, já o site do Estado se refere apenas a Guaíba e o site da Prefeitura o divulga como Lago de diretrizes.

Na minha percepção, o Guaíba sempre foi um rio. Cresci às margens do rio Guaíba, em Ipanema, que na época era praia de veraneio, e vivíamos dentro d’água, velejávamos, tomávamos banho, esquiávamos, remávamos, nadávamos, sem nenhum complexo de culpa ou sinal de doença.

Ter o Guaíba, que chegou a ser um estuário, promovido a lago pra mim nunca fez nenhuma diferença. O que fazia diferença era ver a Borregard, indústria papeleira, se instalando na outra margem, ver a quantidade de esgotos serem despejados in natura na minha “piscina”, receber uma quantidade cada vez maior de produtos químicos usados pelos curtumes nos rios que se ligam ao Guaíba.

Desta forma fui testemunha da quase morte do nosso manancial, fonte de nossa alegria.

Os peixes que ficaram eram só os mandinhos, fortes e que não servem para nada. As aves desapareceram e até os biguás foram passar um tempo na Lagoa dos Patos. Nunca deixei de velejar, mas já não ia a praia tomar banho.

De repente começou a tal de consciência ecológica com os “ecochatos”, como foram batizados aqueles que queriam preservar o meio ambiente pelos que se negavam a investir em filtros, tratamento de esgotos ou de resíduos industriais. A briga foi ganha na insistência. Foram aprovadas leis que obrigavam as industrias a captar água abaixo de onde retiravam e a devolver a água mais limpa do que coletavam.

O Rio reagiu rapidamente, voltaram, os peixes, as aves. Nem sabia que existiam garças nestas paragens. Falta muito ainda para chegarmos a usar nosso agora lago sem culpas ou medo de doenças, mas posso dizer que avançamos bastante. O Guaíba é parte da identidade de Porto Alegre e é importante mesmo para aqueles que estão de costas para ele.

Quando definirem se navegamos em um lago ou novamente em um rio eu conto para vocês.

Para saber mais: http://poavive.wordpress.com.

Nelson Ilha é velejador, árbitro olímpico e juiz internacional da ISAF.

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